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Demissão Responsável
Conheço poucas empresas onde a demissão é conduzida seriamente e os profissionais são tratados com o mínimo de respeito, não apenas como simples número a figurar no quadro de empregados ou nas estatísticas do mercado de trabalho.
Conheço poucas empresas onde a demissão é conduzida seriamente e os profissionais são tratados com o mínimo de respeito, não apenas como simples número a figurar no quadro de empregados ou nas estatísticas do mercado de trabalho.
Ao longo de vinte e cinco anos de carreira a gente vê de tudo. Empresas onde a demissão é a hora da vingança, onde o superior imediato é capaz de lavar as mãos e transferir o problema para a turma do RH ou onde a demissão em massa é efeito da globalização e modernidade, pois um ou dois não provocam impacto positivo nas ações cotadas em bolsa.
Por ironia, trabalhei numa empresa onde os futuros demitidos foram relacionados e entregues ao diretor da unidade. Indeciso, sem conhecer a fundo o papel de cada um, simplesmente optou pelo mais desconhecido da lista e esbravejou de maneira insensível: ”risca esse último”, quando foi alertado pelo profissional de RH. – Chefe, esse é o nosso assador de churrasco! Êpa, esse não, risca então o penúltimo!
Conclusão: um foi salvo por saber preparar um churrasco e outro riscado do mapa por não fazer parte da panela. Exageros à parte, mas assim é tratada a demissão em muitas empresas do Brasil e do mundo, sem contar os chefes tiranos que demitem sorrindo e outros que não suportam subordinados questionadores e vivazes fazendo sombra.
Muitas empresas ainda vivem na Idade Média e não atentam para o fato de que atitudes desse tipo são extremamente prejudiciais à própria imagem, além de outras decisões que afetam o desempenho da organização, tais como fuga de talentos e desmotivação generalizada do grupo.
Empresas que atropelam os princípios éticos e tratam subordinados como simples números não são capazes de motivar ninguém tampouco estimular a equipe a suar a camisa e abusar da criatividade.
Comprometimento e ética são princípios básicos, porém difíceis de serem seguidos por patrões e empregados. Em geral, a ética restringe-se ao manual da organização, pressionada pelas exigências do mercado globalizado, onde o certificado de qualidade impõe determinadas regras e procedimentos não observados na prática.
Uma das maiores vantagens da tecnologia e da modernidade talvez seja a possibilidade de se demitir os empregados por e-mail sem ter que passar pelo constrangimento de conviver alguns segundos olhando diretamente para eles, tendo que esconder a verdadeira razão pela qual estão sendo demitidos ou preteridos em relação a outros profissionais.
Por essas e outras é demasiado importante que o profissional tenha plena consciência dos seus direitos. Manter a cabeça fria e a dignidade é algo que depende do estado de espírito, mas, dentro do possível, é prática recomendável, a fim de minimizar o desgaste emocional, tanto do demitido como dos companheiros de trabalho.
O velho discurso do comprometimento, onde o superior imediato levanta a bola do profissional que sua a camisa pela empresa, induz as pessoas a acreditarem que qualquer tipo de sacrifício, ainda que absurdo vale a pena. Contudo, ninguém deve arrepender-se por levar a vida profissional tão a sério, afinal, existe a paixão natural do ser humano pelo trabalho e o sentido de realização.
A permanência no emprego onde o profissional não encontra espaço para criação edesenvolvimento, deve ser repensada. Chegar aos oitenta ou noventa anos de vida sem saber quem você realmente é ou do que é capaz, além de frustrante, é irreversível.
Apesar das dificuldades e da competição no mercado de trabalho, devemos recusar empregos onde os líderes são espiritualmente fracos, movidos apenas pelo dinheiro, onde o desperdício do talento humano é a primeira alternativa para redução de custos e alcance de objetivos exclusivamente pessoais.
Empresas responsáveis demitem somente em último caso, amparadas por um plano de demissão voluntária e um trabalho interno de esclarecimento para evitar o pânico e a desmotivação.
Contrário às orientações dos especialistas, as organizações demitem empregados em momentos errados, geralmente quando retornam de férias com as baterias recarregadas, cheios de idéias, mas de bolsos vazios.
Todas as experiências, negativas ou positivas, são bem-vindas, pois redirecionam o ser humano e obrigam-no a refletir uma nova maneira de encarar a vida. Não se deve olhar o passado, a não ser para aprender com os erros.
No próximo emprego seja mais seletivo, pense um pouco mais em você e na família, nem tanto na empresa. O passado passou, siga em frente, monitore seus passos, crie valores, seja menos severo consigo mesmo.
Como disse o Max Geringher em artigo publicado na revista Você S.A: no século 21, ”pensar grande” não é mais pensar num grande emprego. É pensar em como não ter de depender de um.
Para muitos profissionais, o desligamento é um caminho difícil, recheado de fortes sentimentos de perda e separação. Para outros é a glória, a liberdade, a hora da reflexão e da virada. É nas dificuldades que o ser humano encontra sua verdadeira força e vocação e supera os verdadeiros desafios: o da sobrevivência e do crescimento interior.
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